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Fundação Oswaldo Cruz
 

100 anos depois

Eduardo de Azeredo Costa*

Um pouco de história ajudará a compreender o que está descortinando a atual epidemia de dengue [este artigo foi escrito em fevereiro de 2002, cuja notoriedade é reflexo de dois fatores determinantes: a proximidade de eleições e a própria notoriedade dos agora afetados: os residentes da zona sul do Rio de Janeiro.

De fato, cremos que desde 1986/87, quando tivemos a primeira epidemia de dengue no Rio, a doença cumpriu o único papel que lhe cabe: reproduzir-se de acordo com um conjunto de características biológicas e sociais bem conhecidas, de modo a, em torno de cada 4 ou 5 anos, como no padrão da América Central e Caribe, determinar uma epidemia nas cidades maiores, com ápices no verão, enquanto nos seus intervalos circula pelo interior e periferias metropolitanas, com igual força, mas sem o impacto midiático. Esta regularidade é modulada pela imunidade da população e pela movimentação das pessoas, mas o processo, contém muitas variáveis dissonantes, como a entrada de outros tipos de vírus, dando maior ou menor número de casos, sem afetar sua estrutura causal.

Como não temos uma vacina eficiente, a variável estratégica para o controle da dengue é o combate aos vetores, em particular o Aedes aegypti, o que torna a história da dengue para nos, uma história do mosquito e do seu combate, objetivando interromper a transmissão da dengue e, também evitar epidemias de febre amarela urbana, já que o vetor é o mesmo.

A história desse mosquito no Brasil provavelmente começa com os navios negreiros, mas só há exatos 100 anos um homem, Oswaldo Cruz, resolveu combate-lo frontalmente. Antes disso a atenção concentrava-se exclusivamente numa doença grave com elevado número de óbitos: a febre amarela.

Carlos Finlay, havia demonstrado que essa doença era transmitida pelo Stegomyia fasciata, hoje conhecido como A. aegypti, o que fora confirmado por Walter Reed. Enquanto muitos cientistas ainda discutiam o assunto, Emilio Ribas em pequenas cidades de São Paulo e Oswaldo Cruz no Rio, convencidos pela experiência cubana, conseguiram demonstrar a eficácia da luta contra o vetor em campo: uma das mais belas vitórias sanitárias de todos os tempos.

A economia agrário-exportadora do fim do século XIX e início do XX dependia centralmente dos portos de Santos e do Rio de Janeiro. A febre amarela era endêmica na capital brasileira, com as oscilações semelhantes às da dengue descritas acima. Os estrangeiros que aqui chegavam, sem imunidade alguma, desenvolviam quadro grave de elevada letalidade. Assim, tripulações inteiras foram atacadas, navios abandonados na baia, apareceram cemitérios de ingleses, por exemplo. O Lombardia, navio de guerra italiano em visita oficial de cortesia, seria abandonado na baia da Guanabara. Na virada do século navios de várias bandeiras recusavam-se a aqui aportar. Por isso a higienização toma vulto na república e Rodrigues Alves dá força total ao jovem Oswaldo Cruz.

Em 1902 ocorreram mais de 900 óbitos por febre amarela no Rio, em 1908 ocorreram os últimos 4 daquela fase, graças à caçada às larvas dos mosquitos e isolamento com telamento dos doentes - afinal não havia inseticidas (aparecem na segunda grande guerra) para o combate às formas adultas (aladas).

O trabalho, sem mídia televisiva ou rádio, foi realizado por 2.500 guardas sanitários. A população do Rio era de cerca de 700 mil habitantes. Grosso modo, portanto, 100 anos depois nossa população é 10 vezes maior. Em iguais condições a saúde precisaria agora 25 mil guardas durante 10 anos... Mas o mosquito não foi erradicado do país e, portanto, voltaríamos a ter no Rio uma epidemia no final da década de 20. Na era Vargas, a luta pela erradicação se tornou nacional e nos anos cinqüenta conseguimos ser certificados por observadores estrangeiros como livres do Aedes aegypti.

Mas outras coisas estavam acontecendo na década de 40: a industrialização e urbanização acelerada do país. Paralelamente ao combate doméstico facilitado por novas técnicas, surgiam novos criadouros de mosquitos de extrema eficiência do ponto de vista do mosquito, disseminados pela indústria automobilística: pneus e ferros velhos.

Não durou muito a erradicação. Em 1967, Leônidas Deane detectaria o A. aegypti em Belém (provavelmente trazido do Caribe em pneus contrabandeados). Em 1974 já infestava Salvador, chegando ao Estado do Rio no final da década de 70. Em 1986, em Nova Iguaçu, 28% dos domicílios e 100% das borracharias da via Dutra tinham larvas do mosquito.

A primeira epidemia de dengue do Brasil, creio que de toda nossa história, ocorreu em Boa Vista em 1981. O vírus do surto do Rio que começou em 1986 em Nova Iguaçu, isto é, 5 anos depois, pode ter sido importado de lá; a outra hipótese é que veio com participantes de um circo que se apresentava na Venezuela. A alta densidade do mosquito e falta total de imunidade da população tornaram a epidemia explosiva. De Nova Iguaçu mesmo, devem ter partido os novos casos índices para várias partes do Brasil, eis que no início do surto ocorreu uma greve de caminhões de carga na via Dutra. Os camioneiros de todo o Brasil bloquearam o transito dormindo nos seus caminhões e imediações.

Para a transmissão eficiente da febre amarela o índice larvário doméstico deve ser acima de 5%. Já para a disseminação da dengue esse índice pode ser abaixo de 2%, o que indica que o trabalho de saúde pública para controle da dengue é mais difícil do que para a febre amarela urbana, ainda que o mosquito seja o mesmo. Mesmo sem visar erradicação, deve, pois, ser eficiente e continuado.

Aos milhares que estão adoecendo fique a certeza, que relativamente a muitas outras doenças infecciosas, como o sarampo, a dengue é benigna, isto é, não deixa seqüelas e a ocorrência de óbito é raríssima. O que não quer dizer que não produza sofrimento e ansiedade e que não seja necessário um acompanhamento competente a eventualidade de uma síndrome grave hemorrágica ou não.

É dentro desse quadro que podemos botar nosso olhar crítico hoje e sugerir planos de ação de combate ao A. aegypti.

*Eduardo Costa é diretor de Farmanguinhos, unidade da Fiocruz

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