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Um pouco de história ajudará
a compreender o que está descortinando a atual
epidemia de dengue [este artigo foi escrito em fevereiro
de 2002, cuja notoriedade é reflexo de dois fatores
determinantes: a proximidade de eleições
e a própria notoriedade dos agora afetados: os
residentes da zona sul do Rio de Janeiro.
De fato, cremos que desde 1986/87,
quando tivemos a primeira epidemia de dengue no Rio,
a doença cumpriu o único papel que lhe
cabe: reproduzir-se de acordo com um conjunto de características
biológicas e sociais bem conhecidas, de modo
a, em torno de cada 4 ou 5 anos, como no padrão
da América Central e Caribe, determinar uma epidemia
nas cidades maiores, com ápices no verão,
enquanto nos seus intervalos circula pelo interior e
periferias metropolitanas, com igual força, mas
sem o impacto midiático. Esta regularidade é
modulada pela imunidade da população e
pela movimentação das pessoas, mas o processo,
contém muitas variáveis dissonantes, como
a entrada de outros tipos de vírus, dando maior
ou menor número de casos, sem afetar sua estrutura
causal.
Como não temos uma vacina eficiente,
a variável estratégica para o controle
da dengue é o combate aos vetores, em particular
o Aedes aegypti, o que torna a história
da dengue para nos, uma história do mosquito
e do seu combate, objetivando interromper a transmissão
da dengue e, também evitar epidemias de febre
amarela urbana, já que o vetor é o mesmo.
A história desse mosquito no
Brasil provavelmente começa com os navios negreiros,
mas só há exatos 100 anos um homem, Oswaldo
Cruz, resolveu combate-lo frontalmente. Antes disso
a atenção concentrava-se exclusivamente
numa doença grave com elevado número de
óbitos: a febre amarela.
Carlos Finlay, havia demonstrado que
essa doença era transmitida pelo Stegomyia
fasciata, hoje conhecido como A. aegypti,
o que fora confirmado por Walter Reed. Enquanto muitos
cientistas ainda discutiam o assunto, Emilio Ribas em
pequenas cidades de São Paulo e Oswaldo Cruz
no Rio, convencidos pela experiência cubana, conseguiram
demonstrar a eficácia da luta contra o vetor
em campo: uma das mais belas vitórias sanitárias
de todos os tempos.
A economia agrário-exportadora
do fim do século XIX e início do XX dependia
centralmente dos portos de Santos e do Rio de Janeiro.
A febre amarela era endêmica na capital brasileira,
com as oscilações semelhantes às
da dengue descritas acima. Os estrangeiros que aqui
chegavam, sem imunidade alguma, desenvolviam quadro
grave de elevada letalidade. Assim, tripulações
inteiras foram atacadas, navios abandonados na baia,
apareceram cemitérios de ingleses, por exemplo.
O Lombardia, navio de guerra italiano em visita oficial
de cortesia, seria abandonado na baia da Guanabara.
Na virada do século navios de várias bandeiras
recusavam-se a aqui aportar. Por isso a higienização
toma vulto na república e Rodrigues Alves dá
força total ao jovem Oswaldo Cruz.
Em 1902 ocorreram mais de 900 óbitos
por febre amarela no Rio, em 1908 ocorreram os últimos
4 daquela fase, graças à caçada
às larvas dos mosquitos e isolamento com telamento
dos doentes - afinal não havia inseticidas (aparecem
na segunda grande guerra) para o combate às formas
adultas (aladas).
O trabalho, sem mídia televisiva
ou rádio, foi realizado por 2.500 guardas sanitários.
A população do Rio era de cerca de 700
mil habitantes. Grosso modo, portanto, 100 anos depois
nossa população é 10 vezes maior.
Em iguais condições a saúde precisaria
agora 25 mil guardas durante 10 anos... Mas o mosquito
não foi erradicado do país e, portanto,
voltaríamos a ter no Rio uma epidemia no final
da década de 20. Na era Vargas, a luta pela erradicação
se tornou nacional e nos anos cinqüenta conseguimos
ser certificados por observadores estrangeiros como
livres do Aedes aegypti.
Mas outras coisas estavam acontecendo
na década de 40: a industrialização
e urbanização acelerada do país.
Paralelamente ao combate doméstico facilitado
por novas técnicas, surgiam novos criadouros
de mosquitos de extrema eficiência do ponto de
vista do mosquito, disseminados pela indústria
automobilística: pneus e ferros velhos.
Não durou muito a erradicação.
Em 1967, Leônidas Deane detectaria o A. aegypti
em Belém (provavelmente trazido do Caribe em
pneus contrabandeados). Em 1974 já infestava
Salvador, chegando ao Estado do Rio no final da década
de 70. Em 1986, em Nova Iguaçu, 28% dos domicílios
e 100% das borracharias da via Dutra tinham larvas do
mosquito.
A primeira epidemia de dengue do Brasil,
creio que de toda nossa história, ocorreu em
Boa Vista em 1981. O vírus do surto do Rio que
começou em 1986 em Nova Iguaçu, isto é,
5 anos depois, pode ter sido importado de lá;
a outra hipótese é que veio com participantes
de um circo que se apresentava na Venezuela. A alta
densidade do mosquito e falta total de imunidade da
população tornaram a epidemia explosiva.
De Nova Iguaçu mesmo, devem ter partido os novos
casos índices para várias partes do Brasil,
eis que no início do surto ocorreu uma greve
de caminhões de carga na via Dutra. Os camioneiros
de todo o Brasil bloquearam o transito dormindo nos
seus caminhões e imediações.
Para a transmissão eficiente
da febre amarela o índice larvário doméstico
deve ser acima de 5%. Já para a disseminação
da dengue esse índice pode ser abaixo de 2%,
o que indica que o trabalho de saúde pública
para controle da dengue é mais difícil
do que para a febre amarela urbana, ainda que o mosquito
seja o mesmo. Mesmo sem visar erradicação,
deve, pois, ser eficiente e continuado.
Aos milhares que estão adoecendo
fique a certeza, que relativamente a muitas outras doenças
infecciosas, como o sarampo, a dengue é benigna,
isto é, não deixa seqüelas e a ocorrência
de óbito é raríssima. O que não
quer dizer que não produza sofrimento e ansiedade
e que não seja necessário um acompanhamento
competente a eventualidade de uma síndrome grave
hemorrágica ou não.
É dentro desse quadro que podemos
botar nosso olhar crítico hoje e sugerir planos
de ação de combate ao A. aegypti.
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