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Doença de Chagas


Carlos Chagas

Carlos Chagas: infância, primeiros estudos e formação médica

 

Simone Petraglia Kropf

Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, Expansão, 20040-361, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Email: simonek@coc.fiocruz.br

 

Carlos Ribeiro Justiniano Chagas, primeiro dos quatro filhos de José Justiniano Chagas e Mariana Cândida Ribeiro Chagas, nasceu aos 9 de julho de 1878, na Fazenda Bom Retiro, próximo à pequena cidade de Oliveira, Minas Gerais. Seus antepassados, de origem portuguesa, tinham se estabelecido na região havia quase um século e meio. Órfão de pai aos quatro anos, Chagas passou a infância nessa e em outra fazenda da família, em Juiz de Fora, onde sua mãe administrava o cultivo do café. Embora distante dos centros ilustrados do país, a convivência com os tios maternos (dois advogados e um médico) fez com que o menino manifestasse, desde cedo, vontade de avançar nos estudos, com particular interesse pela medicina.

 

Carlos Chagas aos quatro anos. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Fazenda Bom Retiro, localizada próximo a Oliveira (Minas Gerais), onde nasceu Carlos Chagas. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

 

José Justiniano Chagas e Mariana Cândida Ribeiro Chagas, pais de Carlos Chagas. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Aos oito anos, alfabetizado, foi matriculado no Colégio São Luís, internato dirigido por jesuítas em Itu, interior de São Paulo. Mas não ficaria ali por muito tempo. Em maio de 1888, ao ter notícias de que os escravos recém-libertados estariam depredando fazendas, fugiu do colégio para ir ao encontro de sua mãe. A indisciplina foi punida com a expulsão e o menino transferiu-se para o Ginásio São Francisco, em São João del Rey, Minas Gerais. Concluídos os estudos, sua mãe decidiu que ele deveria formar-se em engenharia. Em 1895, ingressou então no curso preparatório da Escola de Minas de Ouro Preto, tradicional centro de ensino superior. Contudo, os excessos da vida boêmia custaram-lhe a reprovação nos exames e o retorno a Oliveira. Com a ajuda do tio médico, venceu a resistência da mãe e mudou-se para a capital federal, para estudar medicina.

No Rio de Janeiro, foi morar com outros estudantes mineiros numa pensão no bairro da Tijuca. Em abril de 1897, matriculou-se na Faculdade de Medicina, na rua de Santa Luzia, centro da cidade. Chagas impressionou-se vivamente com a agitação política da capital. O governo de Prudente de Morais (1894-1898), primeiro presidente civil da República, buscava superar as turbulências e conflitos que vinham sacudindo o novo regime, como a revolta de Canudos, no interior da Bahia. O governo de Campos Sales (1898-1902) selaria a estabilização política e econômica e estabeleceria as bases da tão propalada modernização republicana.

Do ponto de vista cultural, a cidade também vivia um momento de grande efervescência. O jovem estudante, que assistira logo ao chegar à criação da Academia Brasileira de Letras, ficou entusiasmado com os novos escritores e estilos que se projetavam na cena literária. Nos diversos espaços intelectuais, disseminava-se a crença de que se vivia um novo tempo, simbolicamente expresso no novo século que se aproximava, em que o Brasil ingressaria no rol das nações “civilizadas”. Sob os valores do positivismo e outras teorias cientificistas, a ciência e a técnica eram exaltadas, pela chamada geração de 1870, como elementos norteadores de um saber objetivo e eficaz, capaz de prover o bem-estar moral e material da sociedade.

Foi sob esta perspectiva que médicos e engenheiros engajaram-se em pensar soluções para as precárias condições sanitárias da capital federal, agravadas naquele final de século em função do próprio ritmo da modernização urbana. As freqüentes epidemias, sobretudo de febre amarela, que assolavam a zona portuária e o centro da cidade, traziam fortes prejuízos às atividades econômicas, concentradas na exportação de café e outros produtos agrícolas e na importação de manufaturas e capitais. O saneamento urbano era visto como crucial para o progresso do país e, com esse objetivo, preparava-se a reforma da cidade que seria realizada nos primeiros anos do século XX.

Foi nesse contexto que se deu a difusão, no país, da microbiologia, num processo marcado por controvérsias, debates e acomodações entre os que aderiam às concepções de Louis Pasteur e Robert Koch e os que defendiam as teorias climatológicas da tradição higienista. A institucionalização da medicina tropical na Europa, no contexto de expansão dos interesses imperialistas, gerava novos conhecimentos sobre o modo de transmissão de doenças infecciosas como a malária e a febre amarela, especialmente sobre o papel dos insetos como vetores.

Em consonância com esta renovação das ciências biomédicas, vários professores da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro defendiam, desde a década de 1880, a importância de incorporar ao ensino os preceitos e práticas da chamada medicina experimental, ou seja, da pesquisa científica realizada no laboratório em busca de novos conhecimentos. Este foi o ambiente em que Chagas realizou seu curso médico, entre 1897 e 1903.

Dois professores marcaram de maneira decisiva sua formação. Um deles foi Miguel Couto, com quem Chagas aprendeu a utilizar os métodos e princípios da medicina experimental para o diagnóstico e o estudo clínico das doenças que compunham a nosologia brasileira. Couto, de quem Chagas se tornaria amigo pessoal, incutiu no jovem estudante a concepção de que a clínica médica deveria ser renovada e subsidiada pelos novos conhecimentos e técnicas propiciados pelas pesquisas científicas. Por sua sugestão, Chagas conheceu as obras de Claude Bernard e de Louis Pasteur.

Outra influência decisiva foi a de Francisco Fajardo, um dos pioneiros da microbiologia no Brasil, que apresentou a Chagas os temas específicos da medicina tropical. Profundamente sintonizado com os estudos e problemáticas peculiares a esta disciplina, especialmente no que dizia respeito à malária, Fajardo colecionava insetos sugadores de sangue e realizava estudos experimentais sobre o ciclo evolutivo do hematozoário descoberto por Laveran, com quem mantinha contatos pessoais. No laboratório de Fajardo, no Hospital da Santa Casa de Misericórdia, Chagas auxiliava a realização de exames hematológicos e a identificação das diferentes espécies do parasito da malária, base para o diagnóstico diferencial das várias formas clínicas da doença. Com o tempo, acumulou material para suas próprias experiências.

Com o objetivo de elaborar sua tese de doutoramento, pré-requisito à qualificação para o exercício da medicina, dirigiu-se em 1902 ao Instituto Soroterápico Federal, em Manguinhos. Levou uma carta de apresentação de Fajardo a Oswaldo Cruz, diretor técnico do Instituto, criado dois anos antes para fabricar soro e vacina contra a peste bubônica. Dava-se assim o primeiro contato com aquele que seria seu grande mestre e com a instituição na qual realizaria sua vida profissional.

O Instituto de Manguinhos – que a partir de 1908, sob a denominação de Instituto Oswaldo Cruz, se consolidaria como respeitado centro de produção de imunobiológicos e de pesquisa e ensino no âmbito da medicina experimental – atraía os estudantes interessados, como Chagas, no estudo científico das doenças tropicais. Aceito por Oswaldo Cruz, que tornou-se seu orientador, Chagas passou a freqüentar o Instituto diariamente. Em 1903, defendeu sua tese de doutoramento, intitulada Estudos hematológicos no impaludismo, analisando a importância dos conhecimentos sobre o ciclo evolutivo do plasmódio para o diagnóstico e o tratamento das várias formas clínicas da malária.

Apesar do convite feito por Oswaldo Cruz para integrar a equipe de pesquisadores de Manguinhos, Chagas preferiu dedicar-se à clínica. Em 1904, foi nomeado médico da Diretoria Geral de Saúde Pública, passando a trabalhar no hospital de isolamento de Jurujuba, Niterói, destinado a atender, sobretudo, doentes de peste. Ao mesmo tempo, instalou seu consultório particular no centro do Rio. Em julho daquele ano, casou-se com Íris Lobo, filha do senador mineiro Fernando Lobo Leite Pereira. Dessa união nasceriam Evandro Chagas, em 1905, e Carlos Chagas Filho, em 1910. No ano seguinte, o convite feito por Cruz para chefiar uma campanha de profilaxia da malária seria o primeiro passo de uma reorientação em sua carreira, que o conduziria de volta aos laboratórios de Manguinhos e à descoberta da doença que leva seu nome.

 

 

Íris Lobo Chagas e seus dois filhos, Carlos Chagas Filho e Evandro Chagas. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Carlos Chagas e as campanhas contra a malária

 

Simone Petraglia Kropf

Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, Expansão, 20040-361, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Email: simonek@coc.fiocruz.br

 

Na passagem do século XIX ao XX, no contexto de difusão da teoria do parasito-vetor constitutiva da medicina tropical mansoniana, o mundo científico foi marcado por uma intensa busca por transmissores alados para as doenças, especialmente insetos sugadores de sangue, como os mosquitos. Para subsidiar as investigações médicas com conhecimentos especializados sobre as características biológicas destes insetos, o Museu Britânico

de História Natural deu início, em 1898, a um amplo levantamento dos mosquitos existentes em todo o mundo. Como mostram Benchimol e Sá (2006), o debate sobre os artrópodes vetores de doenças fez da entomologia médica uma área de conhecimento cada vez mais em evidência. Adolpho Lutz, então diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo, era a principal autoridade científica nesta área no Brasil. Em permanente intercâmbio com os pesquisadores e instituições internacionais, exerceria grande influência sobre outros cientistas que seguiriam por este caminho.

Oswaldo Cruz realizava trabalhos de coleta e classificação de insetos do Brasil, tendo identificado, em 1901, uma nova espécie de anofelino às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Em 1906, a contratação de Arthur Neiva veio reforçar a área no Instituto de Manguinhos, do qual Lutz se tornaria pesquisador em 1908. Tendo como referência os trabalhos de Lutz, Cruz e Neiva, Chagas publicou, em 1907, trabalhos sobre os culicídios brasileiros, com a descrição de novas espécies.

O desenvolvimento da entomologia médica no Instituto – e a inserção de Chagas neste processo – estiveram diretamente relacionados com uma importante frente de ampliação da instituição, acionada por Oswaldo Cruz. Reproduzindo uma prática comum entre os médicos e microbiologistas europeus que se deslocavam para a África e a Ásia a fim de combater epidemias e estudar as doenças tropicais, os pesquisadores de Manguinhos engajavam-se em expedições científicas a diversos pontos do território nacional. Tais missões serviam tanto para estudar as condições sanitárias das distintas regiões, como para debelar crises epidêmicas que prejudicavam as obras de companhias públicas ou privadas associadas à modernização do país. Em função da expansão demográfica e econômica, a realização destas obras, sobretudo das que adentravam matas e regiões inóspitas, era freqüentemente acompanhada de surtos epidêmicos, especialmente de malária. Isso se dava em geral quando da construção das ferrovias, cujas linhas e ramais se multiplicavam pelo território nacional visando a um escoamento mais eficaz da produção agrícola para exportação.

Estas viagens reforçavam a identidade social do Instituto Oswaldo Cruz como instituição comprometida com a solução de questões de saúde pública de interesse nacional. Por outro lado, elas funcionavam também como impulsionadoras da própria pesquisa em torno das novas questões da medicina tropical que surgiam no ambiente médico-científico. Nestes canteiros de obras, os pesquisadores realizavam a coleta de materiais, experiências e estudos sobre temas variados da nosologia brasileira, relacionados tanto a aspectos médico-sanitários, quanto a questões biológicas concernentes aos parasitos e vetores. Foi justamente por meio de viagens como estas que Chagas refez seu vínculo com Manguinhos e com o tema da malária (estudado por ele em sua tese de doutoramento), desenvolvendo habilidades e conhecimentos específicos que o levariam à descoberta de uma nova doença tropical em 1909.

Em 1905, a Companhia Docas de Santos solicitou a Oswaldo Cruz, que chefiava a Diretoria Geral de Saúde Pública, providências para combater uma epidemia de malária entre os trabalhadores que construíam uma hidrelétrica em Itatinga, destinada a abastecer o porto de Santos. Em função de seus conhecimentos sobre a doença, Chagas foi incumbido de coordenar as ações de profilaxia. Esta foi a primeira campanha antipalúdica realizada no Brasil com base nos conhecimentos sobre o papel dos mosquitos como transmissores.

Em fevereiro de 1907, missão semelhante foi iniciada por ele, em parceria com Arthur Neiva, em Xerém, na Baixada Fluminense, onde a doença prejudicava os trabalhos de captação de água para a capital federal, realizados pela Inspetoria Geral de Obras Públicas.

Em junho daquele ano, igualmente por solicitação de Cruz, Chagas partiu para o norte de Minas Gerais, em nova empreitada contra a malária, juntamente com Belisário Penna que, como ele, era médico da Diretoria Geral de Saúde Pública. Na região do rio das Velhas, entre Corinto e Pirapora, uma epidemia da doença paralisava as obras de prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil, cujo objetivo era integrar o Sul ao Norte do país mediante a ligação do Rio a Belém do Pará. No povoado de São Gonçalo das Tabocas (onde se construía uma estação da ferrovia e que, com a inauguração desta em 1908, ganharia o nome de Lassance, em homenagem a um engenheiro da Central do Brasil), Chagas instalou um pequeno laboratório num vagão de trem, que também usava como dormitório. Foi no decorrer das atividades desta campanha que se realizou a descoberta da doença que leva seu nome, que o consagraria internacionalmente.

Desde que pesquisadores ingleses e italianos desvendaram, em 1898/99, o modo de transmissão da malária pelos mosquitos, estudiosos dedicaram-se, em diversos países, a estabelecer medidas para a prevenção e o combate à doença, voltadas para seus dois elementos essenciais: os vetores e o indivíduo portador do parasito. Em trabalho de 1906, Chagas analisou de maneira pormenorizada as diferentes estratégias contra a malária. “Poder-se-á sintetizar num duplo intuito a profilaxia do impaludismo: impedir que o homem doente contamine o culicídio transmissor, evitar que o culicídio parasitado infecte o homem são. [...] A profilaxia será, por isso mesmo, anticulicídica, quando aplicada ao mosquito, e germicida, quando à destruição do hematozoário na fase endógena da evolução dele”.

As ações contra os vetores contemplavam métodos de natureza ofensiva e defensiva. O primeiro era o combate direto aos anofelinos, por meio de campanhas, de feição militar, visando a sua eliminação. As “brigadas contra os mosquitos”, termo cunhado pelo inglês Ronald Ross, deveriam atacá-los em seu estágio larval aquático, tanto por meio de aplicação de substâncias tóxicas (como o petróleo) nas coleções de água, quanto pela drenagem dos terrenos alagadiços que pudessem servir-lhes de habitat. As medidas defensivas consistiam na proteção individual e coletiva contra os mosquitos, por meio de cortinados nas camas e telas nas portas e janelas das casas. As ações dirigidas ao parasito davam-se mediante a administração de quinina (medicamento extraído da casca da árvore quina) aos doentes, visando eliminar o hematozoário.

Nas campanhas que comandou, Chagas procurou colocar tais diretrizes em prática, implementado a quininização preventiva e a proteção dos indivíduos contra os mosquitos. Expressando a articulação entre as novas teorias da microbiologia e da medicina tropical e os interesses da saúde pública, ele enfatizava que os estudos sobre as distintas fases do ciclo evolutivo do hematozoário e sobre os hábitos dos vetores típicos em cada região eram fundamentais para subsidiar as medidas de combate à malária. Os conhecimentos clínicos e epidemiológicos também eram de grande relevância, acentuava, sobretudo porque os doentes constituíam o reservatório do parasito e, conseqüentemente, fontes de contaminação do mosquito e de propagação da doença.

Desde sua primeira experiência em Itatinga, Chagas formulou o princípio de que o ataque direto aos anofelinos não deveria restringir-se às ações antilarvárias, tanto pela dificuldade em realizá-las nos locais onde obras de saneamento eram impraticáveis, quanto  porque, em sua concepção, os insetos deveriam ser combatidos principalmente em sua forma adulta, alada, dentro das habitações. Observando os hábitos dos anofelinos, ele considerou a malária uma infecção essencialmente domiciliária, ou seja, é nos domicílios que ocorrem, na maior parte das vezes, a contaminação do mosquito pelo doente parasitado e a infecção do indivíduo são. Assim, a destruição dos mosquitos deveria ser feita mediante a fumigação de inseticidas nestes ambientes, como o enxofre e o piretro. Expurgos domiciliários com tais substâncias vinham sendo feitos para o combate aos vetores da febre amarela na capital federal desde 1903.

 Tal método, que décadas mais tarde seria utilizado em larga escala com o advento dos inseticidas sintéticos de ação residual, como o DDT, foi aplicado em Itatinga, com resultado muito favorável na apreciação de Chagas, ainda que este assinalasse a necessidade de conjugá-lo a outras medidas preventivas, em especial a aplicação de quinina. Segundo Carlos Chagas Filho, esta contribuição pioneira de seu pai para os estudos e a profilaxia da malária só seria reconhecida plenamente no I Congresso Internacional de Malariologia, realizado em Roma, em 1925.

Carlos Chagas e a descoberta de uma nova tripanossomíase humana

 

Simone Petraglia Kropf

Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, Expansão, 20040-361, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Email: simonek@coc.fiocruz.br

 

Em junho de 1907, Carlos Chagas foi designado por Oswaldo Cruz, que chefiava o Instituto de Manguinhos e a Diretoria Geral de Saúde Pública, para combater uma epidemia de malária que paralisava as obras de prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil em Minas Gerais, na região do rio das Velhas, entre Corinto e Pirapora. No povoado de São Gonçalo das Tabocas (onde se construía uma estação da ferrovia e que, com a inauguração desta em 1908, ganharia o nome de Lassance, em homenagem a um engenheiro da Central do Brasil), ele instalou um pequeno laboratório num vagão de trem, que também usava como dormitório. Enquanto coordenava a campanha de profilaxia, coletava espécies da fauna brasileira, motivado por seu crescente interesse pela entomologia e pela protozoologia. Num contexto de difusão internacional das teorias da medicina tropical, estas eram áreas que assumiam grande importância no projeto de Oswaldo Cruz de transformar o Instituto de Manguinhos num renomado centro de medicina experimental. Em 1908, ao examinar o sangue de um sagüi, Chagas identificou um protozoário do gênero Trypanosoma, que batizou de Trypanosoma minasense. A nova espécie era um parasito habitual, não patogênico, do macaco. 

 

Estação da Estrada de Ferro Central do Brasil em Lassance, Minas Gerais. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Carlos Chagas e Belisário Penna no prédio da Estrada de Ferro Central do Brasil. Lassance, [1908]. Penna é o primeiro da direita para a esquerda, seguido de Chagas. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz.

 

 

            Naquele período, o estudo dos tripanossomas atraía a atenção dos pesquisadores no campo da medicina tropical, especialmente depois que se comprovou que, além de doenças animais, tais protozoários causavam enfermidades humanas, como a tripanossomíase africana. Tradicionalmente conhecida como doença do sono, esta enfermidade causava grande preocupação entre os países europeus que tinham colônias naquele continente.

Além da busca de novos parasitos, Chagas estava atento a artrópodes que pudessem servir-lhes de vetores. Numa viagem a Pirapora, ele e Belisário Penna (seu companheiro na missão de combate à malária) pernoitaram, junto com os engenheiros da ferrovia, num rancho às margens do riacho Buriti Pequeno. O chefe da comissão de engenheiros, Cornélio Homem Cantarino Mota, mostrou-lhes então um percevejo hematófago muito comum na região, conhecido vulgarmente como barbeiro, pelo hábito de picar o rosto de suas vítimas enquanto dormiam. Era abundante nas choupanas de pau-a-pique da região, escondendo-se nas frestas e buracos das paredes de barro durante o dia e atacando seus moradores à noite.

 

Carlos Chagas e Belisário Penna com a equipe que trabalhava no prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil, na região do rio das Velhas, Minas Gerais. [1908]. Sentados, da direita para a esquerda: Carlos Chagas, Belisário Penna, Cornélio Homem Cantarino Mota - chefe da comissão de engenheiros - e o médico Bahia da Rocha. Em pé, os engenheiros Amaral Teborge, José de Oliveira Fonseca e Joaquim Silvério de Castro Barbosa. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Cafua em Lassance. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

 

Sabendo da importância dos insetos sugadores de sangue como transmissores de doenças parasitárias, Chagas examinou alguns barbeiros e encontrou em seu intestino formas flageladas de um protozoário, com certas características que o fizeram pensar que poderia tratar-se de um parasito natural do inseto ou então de uma fase evolutiva de um tripanossoma de vertebrado. No caso desta segunda hipótese, poderia ser o próprio T. minasense, sendo o barbeiro o vetor que o transmitiria aos sagüis.

 

O barbeiro. Estampa de Castro Silva, publicada em: Chagas, Carlos. “Nova tripanossomíase humana. Estudos sobre a morfologia e o ciclo evolutivo do Schizotrypanum cruzi n. gen., n. sp., agente etiológico de nova entidade mórbida do homem”, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 1(2): 159-218, agosto de 1909.

 

 

Por não dispor em Lassance de condições laboratoriais para elucidar a questão, uma vez que os macacos da região estavam infectados pelo minasense, Chagas enviou a Manguinhos alguns daqueles insetos. Oswaldo Cruz os fez se alimentarem em sagüis criados em laboratórios (e portanto livres de qualquer infecção) e, cerca de um mês depois, comunicou a Chagas que encontrara formas de tripanossoma no sangue de um dos animais, que havia adoecido. Voltando ao Instituto, Chagas constatou que o protozoário não era o T. minasense, mas uma nova espécie de tripanossoma, que batizou então de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre. A nota anunciando esta descoberta foi redigida em Manguinhos em 17 de dezembro de 1908 e publicada na revista do Instituto de Doenças Tropicais de Hamburgo (Archiff für Schiffs-und Tropen-Hygiene), no início de 1909.

 

Vista de Lassance tomada do alto de um vagão da Estrada de Ferro Central do Brasil. Lassance, 1909. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

 

Em Manguinhos, Chagas iniciou estudos sistemáticos sobre o ciclo evolutivo do novo parasito que, em cumprimento a dois dos postulados de Koch, mostrou-se capaz de infectar experimentalmente cães, cobaias e coelhos e de ser cultivado em agar-sangue. O barbeiro, por sua vez, passou a ser minuciosamente investigado por Arthur Neiva, também pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz. Em busca de outros hospedeiros vertebrados do T. cruzi e suspeitando que o homem pudesse ser um deles – hipótese reforçada por seus conhecimentos sobre a malária, também transmitida por um inseto hematófago domiciliário e causada por um hematozoário –, Chagas retornou a Lassance. Sobre o raciocínio que empreendeu naquele momento, relatou, em trabalho publicado na revista Brasil Médico em 1910:

 

“Leváramos, como idéia diretriz, a noção de constituírem os domicílios humanos o habitat predileto, senão exclusivo, do hematófago, assim como o fato, amplamente verificado, de ser o sangue humano a alimentação por excelência dele. Seria razoável pensar, daí, numa condição infectuosa intra-domiciliária e que o vertebrado hospedeiro do parasito fosse algum animal doméstico ou o próprio homem”.

 

Esta hipótese também explicaria certos fenômenos mórbidos que havia observado na região e que não se encaixavam no quadro nosológico conhecido.

            Em Lassance, Chagas empreendeu exames sistemáticos de sangue nos moradores. Ao examinar animais domésticos, verificou a presença do T. cruzi no sangue de um gato. No dia 14 de abril de 1909, encontrou finalmente o parasito no sangue de uma criança febril. Em nota prévia publicada no Brasil Médico, uma das principais revistas médicas do país, anunciou a descoberta:

 

“Num doente febricitante, profundamente anemiado e com edemas, com plêiades ganglionares engurgitadas, encontramos tripanossomas, cuja morfologia é idêntica à do Trypanosoma cruzi. Na ausência de qualquer outra etiologia para os sintomas mórbidos observados e ainda de acordo com a experimentação anterior em animais, julgamos tratar-se de uma tripanossomíase humana, moléstia ocasionada pelo Trypanosoma cruzi, cujo transmissor é o Conorrhinus sanguissuga”.  

            

Estágios do Trypanosoma cruzi. Estampa de Castro Silva, publicada em: Chagas, Carlos. “Nova tripanossomíase humana. Estudos sobre a morfologia e o ciclo evolutivo do Schizotrypanum cruzi n. gen., n. sp., agente etiológico de nova entidade mórbida do homem”, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 1(2): 159-218, agosto de 1909.

 

 

Berenice, uma menina de dois anos, era o primeiro caso daquela que seria considerada a partir de então uma nova doença humana. O fato foi divulgado também mediante publicações nos Archiff für Schiffs-und Tropen-Hygiene e no Bulletin de la Société de Pathologie Éxotique.

           Aos 22 de abril, ao mesmo tempo em que o Brasil Médico trazia em suas páginas a descoberta feita no norte de Minas, o feito foi comunicado, em sessão da Academia Nacional de Medicina, por Oswaldo Cruz, que leu um trabalho escrito por Chagas. A imprensa deu destaque ao episódio, reverenciado como uma das “glórias de Manguinhos”.

A descoberta e os primeiros estudos da nova entidade mórbida tiveram um impacto decisivo na carreira científica de Chagas, que alcançou grande proeminência no mundo científico, com efeitos diretos em sua inserção na vida institucional de Manguinhos. Em março de 1910, Oswaldo Cruz realizou concurso para preencher a vaga de “chefe de serviço” aberta com a saída de Henrique da Rocha Lima. Este foi um evento de grande importância para a instituição, pois o ocupante do cargo era visto como o mais provável candidato à sucessão de Oswaldo Cruz. Chagas obteve a primeira colocação e os trabalhos que havia publicado sobre a nova doença tiveram grande peso para tanto. 

   

Carlos Chagas atendendo a menina Rita. Lassance, início da década de 1910. Por muito tempo pensou-se que tal menina era Berenice, o primeiro caso identificado da nova doença. Ao fundo, vê-se o vagão da Estrada de Ferro Central do Brasil, que lhe servia de alojamento e laboratório em Lassance. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

 

Em 26 de outubro de 1910, Chagas foi admitido solenemente como membro titular da Academia Nacional de Medicina, onde proferiu uma conferência apresentando seus estudos clínicos e farto material sobre a doença, inclusive imagens cinematográficas feitas em Lassance. No ano seguinte, um evento marcou a divulgação da descoberta e da nova doença no cenário científico internacional. No pavilhão brasileiro da Exposição Internacional de Higiene e Demografia, realizada em Dresden, Alemanha, a doença de Chagas foi apresentada com destaque, despertando grande interesse do público. Tal projeção expressava a importância que o tema assumia como carro-chefe e vitrine das pesquisas do Instituto Oswaldo Cruz. Outro marco importante da repercussão internacional da descoberta foi a conquista, por Chagas, em 1912, do Prêmio Schaudinn, concedido de quatro em quatro anos pelo Instituto de Doenças Tropicais de Hamburgo ao melhor trabalho em protozoologia.

 

Sala do pavilhão brasileiro na Exposição Internacional de Higiene e Demografia, realizada em junho de 1911 em Dresden, Alemanha. Dresden, junho de 1911. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Diploma do Prêmio Schaudinn, conferido a Carlos Chagas pelo Instituto de Moléstias Tropicais de Hamburgo, Alemanha. Hamburgo, 22 jun. 1912. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

 

Graças à repercussão da descoberta e dos estudos de Chagas, Oswaldo Cruz obteve junto ao governo federal verbas especiais para equipar um pequeno hospital em Lassance, visando sediar os estudos clínicos sobre a nova doença, e para dar início, em Manguinhos, à construção de um hospital destinado às pesquisas e acompanhamento dos casos clínicos identificados no norte de Minas Gerais e em outras regiões do país. Sob a liderança de Chagas e com a colaboração de vários pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (como Gaspar Vianna, Arthur Neiva, Astrogildo Machado, Eurico Villela, Carlos Bastos de Magarinos Torres, entre outros), a nova tripanossomíase passou a ser estudada em seus vários aspectos, como as características biológicas do vetor, do parasito e de seu ciclo evolutivo, o quadro clínico e a patogenia, as características epidemiológicas, os mecanismos de transmissão e as técnicas de diagnóstico.

 

Hospital em Lassance. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Carlos Chagas e pacientes no Hospital Oswaldo Cruz, em Manguinhos. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

 

Assumindo centralidade na agenda de pesquisas do Instituto Oswaldo Cruz e no próprio processo de institucionalização da atividade científica no país, a descoberta da doença de Chagas passou a ser tratada pelos contemporâneos e pela memorialística médica, até o presente, como um mito glorificador da ciência brasileira. Uma das considerações que se tornariam mais recorrentes quanto à importância da descoberta como “feito único” da ciência nacional foi o caráter incomum da seqüência sob a qual ela ocorreu, já que se partiu da identificação do vetor e do agente causal para em seguida determinar a doença a eles associada. Outro aspecto singular foi o fato de o mesmo pesquisador haver descoberto, num curto intervalo de tempo, um novo vetor, um novo parasito e uma nova entidade mórbida.

A historiografia sobre a descoberta da doença de Chagas ressalta sua inscrição no contexto de afirmação e institucionalização da medicina tropical européia, tanto em função dos referenciais teóricos que a viabilizaram, quanto pela contribuição que a própria descoberta trouxe para a consolidação da nova especialidade médica criada na Inglaterra por Patrick Manson nos últimos anos do século XIX. Sá (2005) aponta, por exemplo, a importância do estudo do T. cruzi para a elucidação de questões relativas à relação parasito-vetor no caso das infecções causadas por tripanossomas. 

Outro aspecto salientado pelos historiadores é a importância da descoberta como fonte de legitimação, visibilidade e recursos – materiais e simbólicos – para o Instituto Oswaldo Cruz. Stepan (1976), Benchimol e Teixeira (1993) enfatizam que ela propiciou a consolidação da protozoologia como área de concentração das pesquisas na instituição e impulsionou o seu reconhecimento na comunidade científica internacional como renomado centro de investigação sobre doenças tropicais. Kropf (2006) chama a atenção para que se, por um lado, a descoberta contribuiu para dar sentido e reforçar o projeto institucional de Manguinhos, ela própria ganhou sentidos particulares como “grande feito da ciência nacional” em função dos significados associados a este projeto, que se apresentava publicamente como destinado a associar excelência acadêmica e compromisso social em identificar e solucionar os problemas sanitários do país.

Carlos Chagas na direção do Instituto Oswaldo Cruz e do Departamento Nacional de Saúde Pública

 

Simone Petraglia Kropf

Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, Expansão, 20040-361, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Email: simonek@coc.fiocruz.br

 

Em 14 de fevereiro de 1917, três dias após a morte de Oswaldo Cruz, Carlos Chagas foi nomeado pelo Presidente da República, Venceslau Brás, para a direção do Instituto Oswaldo Cruz, cargo que ocuparia até seu falecimento, aos 8 de novembro de 1934. Em consonância com o modelo institucional estabelecido por Cruz, as atividades de pesquisa, ensino e produção mantiveram-se em estreita vinculação com as demandas da saúde pública, como expressão do compromisso social da ciência de Manguinhos. Esta associação personificava-se na própria figura de Chagas, que, desde a descoberta da doença que leva seu nome, defendia a ampliação das ações sanitárias do Estado, em especial no interior do país. No início de sua gestão no Instituto Oswaldo Cruz, ele participou diretamente das discussões promovidas pelo chamado movimento sanitarista, liderado por Belisário Penna, que levariam, em 1919, a uma reforma dos serviços sanitários federais, tendo em vista, sobretudo, a implantação de serviços de saneamento rural.

Durante sua administração, Chagas empenhou-se em ampliar a estrutura laboratorial e o quadro de pesquisadores de Manguinhos, enviando vários deles ao exterior para cursos de aperfeiçoamento. Visando conferir maior formalidade às áreas de trabalho, estabeleceu, mediante reforma regimental em 1926, seis seções científicas: Bacteriologia e Imunidade, Zoologia Médica, Micologia e Fito-Patologia, Anatomia Patológica, Hospitais, Química Aplicada (criada em 1919). 

De modo a acompanhar os avanços que então se processavam nas ciências biológicas, particular atenção foi conferida à bioquímica e à fisiologia, mediante a incorporação de José Carneiro Felipe e Miguel Osório de Almeida. Nas áreas de bacteriologia e imunologia, importante ampliação foi proporcionada com os trabalhos de José da Costa Cruz, Júlio Muniz, Genésio Pacheco, além de José Guilherme Lacorte e José de Castro Teixeira. O mesmo se deu nos campos da zoologia médica, sob a liderança de Lauro Travassos; da micologia, com as pesquisas de Olympio da Fonseca Filho e Arêa-Leão; da entomologia, com os trabalhos de Adolpho Lutz, Ângelo da Costa Lima, Cezar Pinto e Arthur Neiva; e da protozoologia, sob a condução de Aristides Marques da Cunha. As coleções científicas, formadas desde a época de Oswaldo Cruz, foram ampliadas. Também foi motivo de particular interesse o tema da hanseníase, cujas pesquisas se desenvolviam sob o comando de Heráclides César de Souza-Araújo.   

Uma das primeiras realizações da administração de Chagas foi a inauguração, em 1918, do Hospital Oswaldo Cruz (posteriormente denominado Hospital Evandro Chagas e atual Instituto de Pesquisas Evandro Chagas), projetado em 1912, visando à internação de casos de doenças infecto-contagiosas, especialmente da tripanossomíase americana, sobre as quais pesquisadores do Instituto estivessem realizando estudos. Sua chefia coube a Eurico Villlela, que deu grande desenvolvimento às pesquisas no campo da patologia e foi um dos principais colaboradores de Chagas no estudo da tripanossomíase americana. Amplo e bem equipado, o hospital destacava-se, entre outros aspectos, pelo pioneiro recurso às técnicas da eletrocardiografia, sob a supervisão de Evandro Chagas, filho mais velho de Carlos Chagas. A busca de novos medicamentos para as doenças tropicais, subsidiada pelos crescentes avanços na área da química, foi um campo de particular destaque das investigações realizadas no hospital e em demais seções do Instituto Oswaldo Cruz.

No que se refere ao ensino, Chagas ampliou o programa dos chamados Cursos de Aplicação de Manguinhos, oferecidos desde 1908 para a formação de pesquisadores em microbiologia e zoologia médica. A criação, em 1925, da cadeira de Medicina Tropical na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (da qual Chagas foi o primeiro titular) abriu uma importante interface entre o programa de pesquisas do Instituto Oswaldo Cruz e a formação profissional na área médica.

Quanto à área de produção, Chagas diversificou a pauta de medicamentos e produtos biológicos fabricados em Manguinhos. Lutou para manter a renda própria advinda do patenteamento e venda das vacinas contra o carbúnculo sintomático (ou peste da manqueira) e o carbúnculo hemático, de modo a garantir a flexibilidade financeira que, desde os primeiros anos do Instituto Oswaldo Cruz, era fundamental para o desenvolvimento da instituição. Em 1918, organizou o Serviço de Medicamentos Oficiais, no prédio que passou a ser conhecido como “pavilhão da Quinina”, destinado a fabricar e fornecer este produto (utilizado na prevenção e tratamento da malária), o tártaro emético e outros medicamentos, gratuitamente ou a preços subsidiados, aos postos de profilaxia rural, governos estaduais, Forças Armadas e empresas públicas e privadas. Esta medida expressava a participação ativa de Chagas, como diretor de Manguinhos, na viabilização de medidas preconizadas pelo movimento sanitarista. O Instituto assumiu também a responsabilidade pelo controle da qualidade dos imunobiológicos fabricados ou importados pelos laboratórios nacionais e incorporou o Instituto Vacinogênico Municipal, responsável pela fabricação da vacina antivariólica. 

Além da administração do Instituto Oswaldo Cruz, outro campo em que Chagas conquistou grande projeção e visibilidade foi o da saúde pública. Em 1918, ele foi aclamado herói pela imprensa por sua dedicação ao combate à epidemia de gripe espanhola, cujos efeitos devastadores na capital federal contribuíram para amplificar ainda mais as denúncias que vinham sendo feitas quanto à fragilidade dos poderes públicos no campo da saúde. Convocado pelo presidente da República para comandar a assistência à população, Chagas instalou hospitais e postos de atendimento emergenciais em diferentes pontos da cidade e convocou a classe médica a colaborar no socorro aos doentes. Aproveitou a ocasião para salientar a necessidade de hospitais regionais nas zonas do interior do país, desguarnecidas, em geral, de quaisquer serviços de assistência médico-hospitalar. Em conformidade com as posições do movimento sanitarista, Chagas enfatizava que esta deveria ser uma atribuição da administração federal.

A repercussão de sua atuação no combate à gripe espanhola pesou na escolha de seu nome para dirigir a nova agência sanitária federal, o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), criada, depois de intenso debate parlamentar, em dezembro de 1919. À semelhança do que Oswaldo Cruz havia feito em relação à Diretoria Geral de Saúde Pública, Chagas acumulou o cargo com a direção de Manguinhos.

Como aponta Hochman (1998), o novo órgão, concretizando a intenção do presidente Epitácio Pessoa de fazer da reforma sanitária uma prioridade de seu governo, atendia em boa medida as reivindicações do movimento sanitarista, ampliando a intervenção e a regulação do governo central na saúde pública e contrapondo-se ao modelo descentralizado baseado na autonomia dos estados, vigente até então.

Da administração de Chagas no DNSP, que se estenderia até 1926, destaca-se a criação de um complexo e extenso Código Sanitário que organizou e modernizou a legislação sanitária brasileira. Outra inovação foi a extensão das ações de saúde pública, até então concentradas nas áreas urbanas, ao interior do país, visando promover, em especial, o combate às endemias rurais. Belisário Penna, que havia sido o fundador da Liga Pró-Saneamento do Brasil em 1918, assumiu a então criada Diretoria de Saneamento e Profilaxia Rural. Chagas contou, para tais serviços, com a decisiva atuação da International Health Board da Fundação Rockefeller. Tendo enviado uma primeira comissão ao país em 1915, esta instituição criou a partir de então postos de profilaxia da ancilostomose e da febre amarela em vários estados brasileiros e, em 1923, firmou um acordo de cooperação com o DNSP para ampliar o combate a esta última doença. Os cuidados com a maternidade e a infância, a assistência hospitalar e o combate à tuberculose, à sífilis e à lepra foram também contemplados com a criação de órgãos e instituições.

Outro aspecto importante da administração de Chagas foi o investimento na formação de profissionais especializados em saúde pública, para o qual também contou com a Fundação Rockefeller. Em 1923, foi fundada, na capital federal, a primeira escola de Enfermagem do país (Escola Anna Nery) e estabelecido um sistema profissionalizado de enfermagem hospitalar no então criado Hospital São Francisco de Assis. Em 1926, Chagas organizou o Curso Especial de Higiene e Saúde Pública, como especialização na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Ministrado por pesquisadores de Manguinhos, o programa e o regimento do curso eram de responsabilidade do Instituto Oswaldo Cruz e, aos aprovados, estaria garantido o acesso direto aos cargos da administração federal da saúde pública. Como mostra Fonseca (2007), este curso, o primeiro do gênero no país, foi um marco importante na institucionalização e profissionalização da carreira de sanitarista no Brasil.

As idéias e projetos de Chagas no campo da saúde pública tiveram repercussão internacional mediante sua atuação, a partir de 1922, como membro do Comitê de Saúde da Liga das Nações. Merece destaque a criação, no âmbito desta instituição, do Centro Internacional de Leprologia (do qual Chagas foi idealizador e primeiro diretor), inaugurado em 1934 e que funcionou no Instituto Oswaldo Cruz até 1939.

   A nomeação de Chagas para estes importantes cargos da ciência e da saúde pública federal, ao mesmo tempo em que traduzia reconhecimento e legitimidade, impunha uma maior susceptibilidade e exposição a críticas, controvérsias e tensões. Assim, apesar do prestígio que conquistou como herdeiro de Oswaldo Cruz em Manguinhos e na saúde pública federal, ele enfrentou contestações em ambas as esferas de sua atuação pública.

Como mostrou Benchimol, ao longo da década de 1920, o estrangulamento financeiro provocado pela concorrência com outros laboratórios produtores de imunobiológicos, a crescente insuficiência das dotações orçamentárias e a inflação levaram ao progressivo desgaste da infra-estrutura física e tecnológica do Instituto Oswaldo Cruz, bem como ao declínio dos salários de seus funcionários, com a conseqüente evasão de pesquisadores e a generalização do duplo emprego. Tudo isso provocou prejuízos ao rendimento e à qualidade das pesquisas, o que se agravou nos primeiros anos do governo de Getúlio Vargas. Assim, entre 1930 e 1934, Chagas administrou uma instituição que sofria os efeitos das transformações pelas quais passava o próprio Estado brasileiro, expressas, por exemplo, na criação do Ministério da Educação e Saúde, em 1930. Durante este período, o Instituto Oswaldo Cruz se viu diante da necessidade de redefinir seus vínculos e atribuições face às novas demandas e estruturas administrativas do campo sanitário.

Os conflitos que enfrentou em sua administração no DNSP, especialmente durante a presidência de Arthur Bernardes (1922-1926), contribuíram para o desgaste político de Chagas. Um dos motivos de críticas foi, por exemplo, a associação com a Fundação Rockefeller, condenada por médicos que, no contexto nacionalista dos anos de 1920, incomodavam-se com o protagonismo de estrangeiros num domínio que Oswaldo Cruz havia tornado a grande vitrine da competência nacional na saúde pública: o combate à febre amarela. Em 1926, ano em que deixou o DNSP, Chagas foi duramente atacado na imprensa por conta um surto de varíola na cidade e do risco de uma epidemia de febre amarela. As viagens que fazia ao exterior também foram alvo de intensa oposição.

Estas tensões, além de rivalidades de natureza política e pessoal comuns a trajetórias de projeção na cena pública, expressavam as próprias tensões vividas pela sociedade brasileira na conturbada década de 1920, num processo que levaria à chamada Revolução de 1930. Elas foram uma importante dimensão das contestações de que foi alvo a própria doença descoberta por Chagas, objeto de acirrada polêmica na Academia Nacional de Medicina entre 1922 e 1923.

Apesar desses conflitos, a atuação profissional de Chagas na vida pública expressou sua consagração como cientista que, desde a descoberta da tripanossomíase americana em Lassance, teve a vida profissional direcionada, com o apoio explícito e sistemático de Oswaldo Cruz, a trilhar o caminho que o tornaria herdeiro não apenas da direção de Manguinhos, mas daquilo que esta instituição representava: um projeto de ciência articulado a um projeto nacional, firmado pelo compromisso com as questões de saúde da população brasileira.

     

Instituto Oswaldo Cruz. Cartão com dedicatória de Carlos Chagas. Rio de Janeiro, 1934. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Chagas e visitantes no Instituto Oswaldo Cruz. Da esquerda para a direita: Eurico Villela, H. Vaquez, da Faculdade de Medicina de Paris, Leon Bernard, presidente do Comitê de Saúde da Liga das Nações, Mme. Vaquez, Carlos Chagas e Joseph Babinski. Foto de J. Pinto. Rio de Janeiro, 1925. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

A visita de Einstein ao IOC. Da esquerda para a direita: Carlos Burle de Figueiredo, Antonio Eugenio de Arêa-Leão, não identificado, Nicanor Botafogo Gonçalves da Silva, Adolpho Lutz, Alcides Godoy, Carlos Chagas, Astrogildo Machado, Albert Einstein, José da Costa Cruz, não identificado, José Carneiro Felippe e Leocádio Chaves. Foto de J. Pinto. Rio de Janeiro, maio de 1925. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Com estudantes, no busto de Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, s.d. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Posse de Carlos Chagas na Diretoria Geral de Saúde Pública (transformada, logo depois, em Departamento Nacional de Saúde Pública), em 4 de outubro de 1919. Publicada na Revista da Semana, Rio de Janeiro, 11 out. 1919, p.09. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Charge de Carlos Chagas. Publicada em D. Quixote, Rio de Janeiro, 29 out. 1919, p.1. Lê-se: "Tu que tens virtudes magas /Do Oswaldo as lições propagas /E a sua perda nos pagas /Acaba com tantas pragas /Carlos Chagas, Carlos Chagas!"  Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Charge que representa Carlos Chagas defendendo a cidade contra a entrada de doenças por ocasião do carnaval. Rio de Janeiro, 1920. Publicada em Careta, Rio de Janeiro, 7 fev. 1920, p.1. Na legenda, lê-se: O porteiro implacavel. Foi vedada a entrada dos primeiros mascarados. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Solenidade em homenagem à enfermeira Ethel Parsons, da Fundação Rockefeller, responsável pelo Serviço de Enfermagem Sanitária e primeira diretora da Escola de Enfermagem Anna Nery. Rio de Janeiro, 1926. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

 

 

Carlos Chagas e o ensino médico: a cadeira de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro

Simone Petraglia Kropf

Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, Expansão, 20040-361, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

E-mail: simonek@coc.fiocruz.br

 

A atuação de Carlos Chagas como professor teve início no Instituto Oswaldo Cruz, em cujo Curso de Aplicação, desde o início da década de 1910, ele dava aulas de protozoologia. Em 1917, cogitou-se sua nomeação para substituir Miguel Pereira, então falecido, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (FMRJ). Contudo, o ingresso de Chagas como docente nesta escola se daria somente em 1925, quando se tornou catedrático de medicina tropical, atividade que desenvolveria até sua morte, em novembro de 1934.  

A idéia de estabelecer, na FMRJ, uma cátedra destinada ao estudo das chamadas doenças tropicais era uma antiga aspiração dos que preconizavam a incorporação ao ensino médico das novas teorias e práticas da medicina experimental. Em 1900, logo após a fundação das escolas inglesas de medicina tropical, alguns médicos defenderam a criação da disciplina de “patologia e clínica tropicais” nas faculdades do Rio e de Salvador, mas a proposta não foi aceita. 

Em 1925, a cadeira de medicina tropical foi criada no âmbito da reforma do ensino promovida pelo Ministério da Justiça e Negócios Interiores e conduzida, na FMRJ, por seu diretor Juvenil da Rocha Vaz. As decisões sobre a nomeação de professores, as questões regimentais e os conteúdos da disciplina, que se tornaria obrigatória para a conclusão do curso médico, caberiam à direção do Instituto Oswaldo Cruz. Para ministrá-la, Chagas foi nomeado catedrático, em maio de 1925, mediante decreto presidencial que, conforme o critério de notório saber, dispensou-o da realização de concurso. Em setembro de 1926, foi proferida a aula inaugural. Para abrigar a cátedra, construiu-se, nos fundos do Hospital São Francisco de Assis (criado pelo próprio Chagas, como diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública, em 1923), o Pavilhão de Doenças Tropicais, mais tarde rebatizado como Pavilhão Carlos Chagas.

Como relata Carlos Chagas Filho (1993), as aulas de Chagas conjugavam a explanação teórica e a observação clínica de doentes e eram subsidiadas por farto material expositivo trazido de Manguinhos, composto por peças anatômicas, projeções e filmes. Ao seu término, os alunos percorriam as enfermarias do pavilhão, em companhia do professor, para aprofundar o aprendizado das doenças tratadas no curso.

A cadeira de medicina tropical – alguns anos depois denominada de Clínica de Doenças Tropicais e Infectuosas – constituiu um espaço importante onde Chagas defendeu sua convicção de que as doenças tropicais eram temas que deveriam atrair o interesse dos médicos brasileiros, tanto sob o ponto de vista estrito do saber científico, quanto pela legitimidade que emprestava à ciência médica em seus compromissos públicos com a nação. Se, no âmbito do movimento sanitarista da década de 1910 e à frente do Departamento Nacional de Saúde Pública, a dimensão política da atuação de Chagas havia sido explícita, o ensino médico tornava-se um espaço de grande importância pela possibilidade de mobilizar as futuras gerações para as bandeiras que vinha desfraldando, desde a descoberta da tripanossomíase americana, em prol do saneamento rural do país.

Em sua aula inaugural, em 1926, Chagas defendeu a criação da cadeira de medicina tropical na FMRJ não apenas como especialidade do saber médico, mas pela importância que adquiria no contexto nacional. As doenças tropicais deveriam ser estudadas, segundo ele, porque representavam “o mais relevante de nossos problemas médico-sociais”. Se a medicina tropical havia sido criada na Europa no âmbito dos interesses colonialistas, no Brasil, salientou, “deveres do mais exaltado e previdente nacionalismo nos obrigam ao estudo e à pesquisa da nosologia brasileira, a fim de [...] realizar, pelo método profilático, a redenção sanitária de nosso vasto território”.

Segundo Chagas, apesar de não haver doenças exclusivas dos trópicos, a demarcação da medicina tropical como especialidade era justificada. Ainda que o clima não constituísse “fator etiopatogênico direto de qualquer entidade mórbida bem definida”, argumentou, “por ele a doença se transforma e modifica, e dele se originam as variantes nosológicas apreciáveis nas diversas regiões da terra”. Em síntese, o clima criaria variantes regionais na patologia ao produzir condições específicas para a ocorrência dos patógenos e vetores, bem como para a susceptibilidade do organismo humano a tais agentes microbianos.

Ao defender o conceito de medicina tropical como caminho para o estudo da nosologia brasileira, Chagas empreendia um recorte que associava os traços específicos desta nosologia à identidade nacional: as doenças tropicais do país eram, fundamentalmente, as endemias rurais, que assumiam, assim, para além de sua expressão epidemiológica, significado simbólico e político como os males do Brasil. Sob tal recorte, os trópicos assumiam concretude e eram re-significados no ambiente físico e social dos sertões, em referência ao projeto político-social do movimento sanitarista, da qual Chagas foi protagonista.

Sob os argumentos teóricos da especialidade, Chagas explicitava um sentido específico vinculado a sua própria trajetória como cientista. A tripanossomíase americana (descoberta por ele em 1909, no interior de Minas) era, acima de qualquer outra, “uma entidade mórbida essencialmente brasileira”, não porque fosse exclusiva do país, mas porque representava o Brasil, numa justaposição de sentidos: havia sido descoberta e estudada aqui, era um emblema das condições de saúde do interior do país e um símbolo da competência médica e científica nacional. “Será ela, por isso mesmo, o assunto inicial deste curso”, disse ele em sua aula inaugural.

O preceito fundamental que regia a concepção de ensino expressa nas aulas de Chagas era o de que este não deveria ater-se à formação profissional para a assistência médica, mas abranger um sentido mais amplo: a estreita associação entre ensino, clínica e pesquisa científica. O terreno específico da medicina tropical, afirmava, era um exemplo claro desta associação: “Se do microscópio não podem [...] prescindir os que estudam e praticam a medicina nos países quentes, porque é de seu manejo que resultam indicações essenciais à finalidade do nosso mister”, como as informações sobre os parasitos patogênicos, por exemplo.

Por outro lado, ao laboratório não cabia substituir a clínica. “O laboratório apenas prolonga a enfermaria”, acentuava Chagas, “e vem prosseguir ou completar a indagação etio-patogênica, sempre orientada pelo conceito clínico inicial, que a todas as pesquisas antecede.” Em suma, era esta articulação que deveria presidir o aprendizado e o estudo das “espécies nosológicas peculiares ao nosso país”.

Esse argumento foi novamente enfatizado na conferência que pronunciou em 1928, na abertura dos cursos da FMRJ:

 

“É do passado essa dualidade de tendências, na orientação do ensino, ou para o leito do hospital ou para os laboratórios de pesquisas, assim definindo, uma escola clínica, que mais demorava na indagação dos sintomas, e uma escola científica que mais insistia na pesquisa experimental. [...] A enfermaria, o laboratório e o instituto anátomopatológico hoje se penetram e se completam, e constituem  uma só unidade técnica, na qual se aplicam inteligência, perspicácia e discernimento para esclarecer a doença”.

 

 

O Pavilhão de Doenças Tropicais vinha concretizar esta estreita associação entre ensino, pesquisa e assistência médica, na medida em que era dotado de laboratórios de pesquisa e análises, enfermarias e um anfiteatro para as aulas expositivas, além de se beneficiar do serviço de necrópsias que, por iniciativa de Chagas, o Instituto Oswaldo Cruz estabelecera no Hospital São Francisco de Assis.

Além da cadeira de medicina tropical, Chagas teve atuação destacada no ensino médico como membro eleito do Conselho Técnico-Científico da Faculdade, juntamente com Miguel Couto, Eduardo Rabello e Francisco Lafayette. Em 1931, quando o então Ministro da Educação e Saúde Francisco Campos deu início à reforma universitária que levaria, em 1935, à criação da Universidade do Brasil, Chagas formulou um projeto destinado a remodelar o ensino médico, tendo em vista os preceitos do sistema universitário.

Com sua morte, em 1934, realizou-se concurso para substituí-lo na cátedra. Seu filho Evandro, que já o auxiliava nas aulas e que havia redigido, em co-autoria com o pai, um Manual de Doenças Tropicais e Infectuosas, concorreu à vaga, mas esta foi preenchida por Joaquim Moreira da Fonseca.

 

Carlos Chagas com alunos do Curso de Aplicação de Manguinhos. Rio de Janeiro, 1911. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

 

 

Carlos Chagas no dia de sua posse como professor catedrático de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 23 maio 1925. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de OswaldoCruz/Fiocruz.

 

Carlos Chagas entre estudantes da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, por ocasião da solenidade de sua posse como professor catedrático de Medicina Tropical. Rio de Janeiro, 23 maio 1925. Publicada em Revista da Semana, Rio de Janeiro, 30 maio 1925, p.21.

 

 

 

Carlos Chagas examinando doente de malária durante aula no Pavilhão de Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, localizado aos fundos do Hospital São Francisco de Assis. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de OswaldoCruz/Fiocruz.

 

 

 

Conselho Técnico da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1933. Da esquerda para a direita, sentados: Clementino Fraga, Fernando Magalhães, Miguel Couto e Carlos Chagas. Em pé: Francisco Lafayette R. Pereira, Eduardo Rabello, Martinho Guimarães e Raul Leitão da Cunha. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Carlos Chagas: prêmios e títulos

 

Danielle C. Barreto

Casa de Oswaldo Cruz - Fiocruz, Expansão, 20040-361, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

E-mail: dbarreto@coc.fiocruz.br

 

Com a descoberta da tripanossomíase americana no interior de Minas Gerais (1909), Carlos Chagas projetou-se nacional e internacionalmente como grande cientista, tornando-se membro de importantes sociedades e recebendo inúmeros títulos honoríficos e algumas premiações. Já no ano seguinte à descoberta, em 26 de outubro de 1910, tornou-se titular da Academia Nacional de Medicina, que pela primeira vez recebia um novo membro sem que houvesse vaga disponível. A excepcionalidade do trabalho de Chagas foi também rapidamente reconhecida pela comunidade científica internacional. Em 22 de junho de 1912, recebeu do Instituto de Moléstias Tropicais de Hamburgo o Prêmio Schaudinn, que a cada quatro anos contemplava a mais importante descoberta na área da protozoologia. Anos mais tarde, em 1923, chefiando a delegação brasileira na conferência comemorativa do centenário de nascimento de Louis Pasteur, em Estrasburgo, receberia o prêmio hors-concours pelos trabalhos sobre saúde pública e doenças tropicais apresentados na exposição que acompanhou o congresso. Em 1925, foi a Universidade de Hamburgo a conferir-lhe o Prêmio Kummel (medalha de ouro). No Brasil, merece destaque a premiação em virtude do trabalho realizado durante a epidemia de gripe espanhola na cidade do Rio de Janeiro, em 1918, quando foi responsável pela organização dos hospitais de emergência. Chagas entregou o prêmio ao Instituto Oswaldo Cruz. Em 1911 e 1920, foi indicado ao Prêmio Nobel de Medicina.

Em 1921, Chagas realizou sua primeira viagem aos Estados Unidos, a convite da Fundação Rockefeller, onde foi homenageado com o título de Artium Magistrum, Honoris Causa pela Universidade de Harvard, sendo o primeiro brasileiro a receber tal distinção. A essa somaram-se outras, como o título de Cavaleiro da Ordem da Coroa da Itália (1920); Comendador da Coroa da Bélgica (1923); Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra da França (1923); Grau de Oficial da Ordem de São Thiago (1924); Comendador da Ordem de Afonso XIII (1925) e da Ordem de Isabel, a Católica (1926); Doutor Honoris Causa pela Universidade de Paris (1926); Cavaleiro da Ordem da Coroa da Romênia (1929); Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lima (1929) e pela Faculdade de Medicina da Universidade Livre de Bruxelas (1934). Carlos Chagas Filho afirma que, de todas as homenagens e honrarias recebidas, seu pai guardaria com viva satisfação as que lhe foram prestadas pelos reis da Bélgica, Alberto e Elisabeth, que visitaram o Instituto Oswaldo Cruz em 1921. 

Carlos Chagas ingressou em inúmeras associações científicas. Além da Academia Nacional de Medicina (1910), foi membro da Société de Pathologie Exotique (1919); Membro Honorário da Physicians Club of Chicago (1921); da Associação Médica Panamericana (1922); da Societas ad Artes Medicas in Indian Orientali Neerlandica (1924); da Academia de Medicina de New York (1926); da Kaiserlich Deutsch Akademie der Naturforscher zur Halle (1926); da Real Sociedade de Medicina Tropical e Higiene de Londres (1928); da Academia de Medicina de Paris (1930); Membro Honorário da Sociedade de Biologia de Buenos Aires (1930). Recebeu ainda os Diplomas da Academia de Medicina da Universidade Nacional de Buenos Aires (1917), da Faculdade de Medicina da Universidade de Hamburgo (1925) e da Cruz Vermelha Alemã (1932).    

 

Diploma do Prêmio Schaudinn, conferido a Carlos Chagas pelo Instituto de Moléstias Tropicais de Hamburgo, Alemanha. Hamburgo, 22 jun. 1912. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Diploma de doutor honoris causa da Universidade de Harvard, concedido a Carlos Chagas em 1921. Boston, 23 jun. 1921. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Prêmio Nobel

Carlos Chagas e a indicação ao prêmio Nobel (por João Carlos Pinto Dias)

Carlos Chagas não recebeu o prêmio Nobel (por Naftale katz)

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