Caracterização da área:

A perspectiva da pesquisa clínica concentra-se, em especial, nos projetos desenvolvidos no Centro de Pequisa do Hospital Evandro Chagas e no Instituto Fernandes Figueira, unidades de tratamento ambulatorial e hospitalar de adultos e
crianças infectadas com o HIV, respectivamente. A assistência ao paciente infectado com o HIV contempla a avaliação e definição de protocolos efetivos de tratamento, considerando esquemas terapêuticos alternativos para pacientes diferenciados quanto ao nível de células CD4+, da carga viral e da presença de diagnósticos específicos. Em uma dimensão mais ampla, direcionada ao subsídio de decisões no nível da gestão de programas e serviços de assistência a pacientes com o HIV/AIDS e formulação de políticas de saúde, incluem-se a avaliação e a predição de custos associados ao tratamento ambulatorial e hospitalar da doença, bem como o diagnóstico preciso da assistência farmacêutica na área, nos seus aspectos de seleção, programação, aquisição, produção, armazenamento, distribuição, controle de qualidade, prescrição e dispensação de medicamentos.

O crescimento da epidemia de AIDS em meados da década de 80 fez com que o Centro de Pesquisas do Hospital Evandro Chagas (CPqHEC) incorporasse a AIDS como uma de suas principais linhas de pesquisa. Desde então, o CPqHEC já prestou assistência a cerca de 1.200 pacientes, sendo que, a partir de 1990, todos os pacientes em acompanhamento são submetidos, pelo menos a cada 6 meses, a uma rotina clínica e laboratorial pré-estabelecida. A pesquisa em AIDS no CPqHEC vem sendo desenvolvida com o objetivo de responder a questões relevantes para a nossa população. Sendo assim, a coinfecção com a tuberculose foi desde o início escolhida como uma das principais linhas de investigação. Ao longo do tempo outras linhas foram sendo incorporadas, incluindo a interação da infecção pelo HIV com outras doenças infecciosas como, as micobacterioses (outras que não a tuberculose), a leishmaniose tegumentar, a hanseníase, o HTLV e as doenças fúngicas. Ademais foi estabelecida uma importante colaboração entre a área clínica e a área básica, em especial com o Laboratório de AIDS e Imunologia Molecular do IOC. O CPqHEC vem colaborando também com outros departamentos do IOC, demais unidades da Fiocruz e com instituições nacionais e internacionais.

A mudança do perfil da epidemia no Brasil, que nos últimos anos vem crescendo rapidamente na população feminina, trouxe à tona uma série de novas questões. Sendo assim, em 1995, o CPqHEC iniciou o estudo da história natural da infecção pelo HIV nas mulheres. Com este objetivo foi estruturada uma coorte aberta, hoje composta de 195 mulheres infectadas pelo HIV, que vem permitindo o desenvolvimento de vários estudos em colaboração com outras unidades da Fiocruz e instituições. No que se refere à área materno-infantil, foco da pesquisa clínica em HIV/AIDS do IFF, os últimos três anos testemunharam um avanço sem precedentes nos conhecimentos sobre a fisiopatologia, diagnóstico, acompanhamento e tratamento da infecção pelo HIV em adultos e crianças. A elucidação da infecção persistente com intensa e permanente produção de novos vírus, a demonstração de elevada carga viral em crianças, justificando o prognóstico mais sombrio do que anteriormente conhecido, a consolidação do tratamento de gestantes soropositivos como forma de interromper a transmissão vertical e a utilização de terapêutica combinada agressiva permitiram que a assistência aos pacientes do IFF se desse em novos patamares, com melhora evidente da qualidade de vida dessas pessoas.

Prioridades estratégicas

A revolução causada na terapia anti-retroviral pela introdução da terapia combinada, especialmente pelo uso dos inibidores de protease, vem levantando um número expressivo de questões relacionadas ao tratamento dos pacientes infectados pelo HIV, mais especificamente´à eficácia de esquemas terapêuticos, a resistência a drogas anti-retrovirais, a adesão dos pacientes aos esquemas terapêuticos, o custo-benefício da terapia anti-retroviral e a reconstituição imunológica e quimioprofilaxia das infecções oportunistas. Estes temas, ainda pouco explorados, apresentam-se como possíveis pesquisas a serem desenvolvidas pela área clínica, em colaboração com as demais áreas do Programa. O crescimento da epidemia na população feminina e o fato de já existir um trabalho significativo nesta área indicam ser esta uma das linhas de relevância a serem desenvolvidas no CPqHEC. Para a melhor estruturação da mesma será
fundamental a incorporação de parcerias com as áreas de epidemiologia e prevenção. Dentro desta linha encontram-se questões relacionadas à transmissão vertical que, desde a comprovação de que a transmissão do HIV pode ser reduzida com a utilização de anti-retrovirais, que poderiam gerar estudos clínicos, epidemiológicos e ensaios terapêuticos. Sendo assim, é importante que os projetos já iniciados pelo Programa, prosigam e sejam ampliados.

A interação da infecção pelo HIV as demais doenças infecciosas, especialmente as endêmicas no Brasil, segue sendo um campo de investigação a ser desenvolvido pela área clínca em colaboração com as áreas básica e de epidemiologia. As doenças sexualmente transmissíveis permanecem sendo um grave problema de saúde pública no Brasil. Nos últimos anos comprovou-se que as DSTs funcionam como facilitadoras para a transmissão da infecção pelo HIV e que medidas para a prevenção e tratamento das mesmas são fundamentais para o controle da epidemia de AIDS. Tal enfoque constitui uma área pouco explorada no País, apresentando-se como uma boa perspectiva para o desenvolvimento um estudo que viria a reunir as diversas áreas do Programa. O estabelecimento de uma coorte de mulheres com risco identificado para a infecção pelo HIV parece bastante oportuna, podendo reunir praticamente todas as áreas integrantes do programa.

Objetivos

Em relação às atividades desenvolvidas no CPqHEC, tem-se como objetivo:

    - realizar estudos sobre a história natural da infecção pelo HIV, especialmente no que se refere a população feminina;
    - estruturar uma coorte de mulheres soronegativas com risco identificado para a infecção pelo HIV;
    - realizar estudos sobre a interação da infecção pelo HIV e outras doenças infecciosas (tuberculose, MAC, leishmaniose, hanseníase, hepatites, HTLV, doença de Chagas e doenças fúngicas);
    - ampliar a coorte de pacientes infectados pelos vários subtipos do HIV-1;
    - reforçar a infra-estrutura do CPqHEC e suas parcerias para a realização de ensaios terapêuticos e estudos mais aprofundados na área das DST.

Para alcançar tais objetivos será fundamental a colaboração com as áreas de epidemiologia e prevenção e a manutenção da parceria com a área básica. Consideramos ainda que é fundamental para a área clínica, a captação de recursos externos à Fiocruz, em agências nacionais e internacionais.

Dentre as parcerias estabelecidas destacamos:

    - Laboratório de AIDS e Imunologia Molecular para a realização de estudos sobre história natural e transmissão vertical do HIV, incluíndo estudos sobre os subtipos virais.
    - Escola Nacional de Saúde Pública para a realização de estudos de sobrevida.
    - Hospital dos Servidores do Estado e Hospital Geral de Nova Iguaçu para estudos em transmissão vertical. Uma coorte aberta e multicêntrica de grávidas HIV positivas, já foi estabelecida e, até o momento, 145 gestantes já foram incluídas.
    - Departamento de Ginecologia do IFF para realização de estudo de prevalência de DST e outras manifestações ginecológicas, com especial ênfase para a patologia cervical. Esta colaboração resultou na escolha destes dois centros (CPqHEC e IFF) pela Coordenação Nacional de DST/AIDS para o desenvolvimento de um programa de capacitação de ginecologistas em HIV/AIDS.
    - Biomanguinhos e o Laboratório de Hanseníase do IOC para realização de estudos de biologia molecular na área das micobactérias e para a realização de estudos sobre a interação entre infecção pelo HIV e hanseníase e estudo da pele em pacientes infectados pelo HIV (Hanseníase).
    - Coordenação Nacional de DST/AIDS e Instituto Fernandes Figueira para capacitação de ginecologistas de vários estados do País e elaboração de material didático.
    - Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA) para o desenvolvimento de estudos na área de transmissão vertical.
    - John's Hopkins University para o estudo da prevalência das DSTs e outras manifestações ginecológicas e para o estudo da prevalência da infecção pelo HIV em puérperas. A colaboração prevê ainda a realização de conferências anuais, tendo a primeira sido realizado em 1997.

Em relação às atividades desenvolvidas no IFF, tem-se como objetivos

    - Consolidar a assistência pré-natal a gestantes soropositivas, inclusive com a pesquisa de novas possibilidades terapêuticas, através de estudo multicêntrico com a UFRJ, Hospital de Curicica e Virology Institute of Maryland University, sobre a farmacocinética da lamivudina associada à zidovudina nestes pacientes;
    - Manter a estreita e íntima colaboração entre a pesquisa e a assistência clínica no IFF e a pesquisa básica através dos estudos de caracterização genômica realizados pelo Núcleo de Retrovírus do Departamento de Virologia do IOC com amostras de crianças e gestantes atendidas no IFF;
    - Ampliar os estudos de carga viral no primeiro ano de vida a fim de se obter um rápido diagnóstico dos infectados e definir a história natural da doença em crianças;
    - Consolidar as estratégias de terapêutica combinada em crianças;
    - Manter os programas de ensino e treinamentos para médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem em AIDS;
    - Publicar os resultados obtidos com a utilização da hidroxiuréia na terapia da infecção pelo HIV/AIDS.

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