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Pesquisadores quantificam crescimento espacial e populacional de favelas cariocas |
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| por Sarita Coelho | ||||
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Em nove anos, surgiram 69 favelas no município do Rio de Janeiro. Esses números, calculados entre 1991 e 2000, são mais preocupantes quando se consideram as estatísticas populacionais. Nesse período, a população da cidade cresceu 6,77% (371.146 pessoas). Já a população das favelas, que era constituída por 876.398 pessoas em 1991, subiu para 1.092.958 em 2000 - um crescimento de quase 25%. Os dados são de um estudo realizado no Laboratório de Geoprocessamento do Centro de Informação Científica e Tecnológica (Cict) da Fiocruz.
Complexo de Rio das Pedras Os pesquisadores estudam o crescimento espacial e populacional das favelas desde 1995. O objetivo é verificar como ocorre o crescimento das favelas e confrontar esses resultados com os dados de saúde do município, o que será útil para subsidiar ações de saúde. O próximo passo da pesquisa será calcular a porcentagem de favelas e população favelada em cada bairro. "Para analisar a ocorrência de doenças através de um contexto sócio-econômico e ambiental é preciso fazer uma associação entre as informações sobre as doenças e as características da população. Em áreas de favela é muito difícil entender dados referentes à saúde, porque os endereços não seguem uma seqüência lógica, as ruas são estreitas e, muitas vezes, as pessoas dão o endereço da entrada da favela ou da associação de moradores", explica a geógrafa Renata Gracie. "Por isso é preciso localizar a favela, saber se sua população está aumentando e se os problemas de saúde no entorno também estão crescendo, para avaliar a assistência de saúde", complementa a engenheira cartógrafa Mônica Magalhães. Pesquisas mostram que, em geral, a população moradora de favelas é mais vulnerável aos problemas de saúde. A falta de saneamento básico, a coleta de lixo irregular ou inadequada, o baixo nível de instrução e o tipo de ocupação (subempregos na maioria das vezes) são alguns dos fatores que determinam essa vulnerabilidade. Entre as enfermidades citadas por estudos atuais, destacam-se a Aids (que vem aumentando sua disseminação entre a população mais carente), as doenças de veiculação hídrica (como cólera e leptospirose) e a tuberculose. A violência freqüente nessas localidades também pode ser considerada como um fator de risco. A equipe da Fiocruz utiliza como fonte o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e trabalha com os setores censitários - demarcações territoriais com limites e pontos de referência estáveis (ruas, rios, parques). De acordo com a definição do IBGE, as favelas são classificadas como setores subnormais, que não seguem a seqüência lógica dos endereços. Os pesquisadores digitalizaram todos os setores delimitados pelo IBGE, separaram os que eram favelas e criaram um outro mapa com os setores censitários das favelas.
De acordo com os resultados, o crescimento populacional da cidade do Rio de Janeiro está concentrado nas favelas. Comunidades que ficam na Zona Oeste do município foram as que mais ampliaram seus espaços territoriais. A favela Areal I, no Complexo de Rio das Pedras, em Jacarepaguá, foi a que apresentou o maior crescimento populacional em números absolutos entre 1996 e 2000. Foram 8.065 pessoas a mais, quase 60% de aumento.
Mapa do limite das favelas no município do Rio
de Janeiro. Já as favelas da Zona Sul e do Centro, que ficam em espaços urbanos já consolidados e não podem mais se expandir, cresceram pouco em área. No entanto, o crescimento populacional continuou. Isso porque em algumas localidades é possível perceber uma ampliação vertical, que ocorre a partir da construção de novos andares sobre as moradias. É difícil precisar de onde vêm os novos ocupantes dessas comunidades. Cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo continuam atraindo pessoas de outras regiões e do interior dos próprios estados. Entrevistas recentes feitas com os moradores da favela Rio das Pedras mostram que mais de 50% é de origem nordestina.
O crescimento das favelas também gera impacto sobre o meio ambiente. É possível encontrar moradias ao redor do maciço da Tijuca, onde fica o Parque Nacional da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo, no Rio. No entanto, a fiscalização impede que elas avancem acima da cota 100 (que limita a área de preservação). O mesmo não ocorre no Parque Estadual da Pedra Branca, na Zona Oeste, onde a construção de casas rudimentares em algumas áreas chega acima da cota 500, indicando que há uma degradação.
Imagem de satélite: quanto mais escuro o rosa mais
densamente O sistema de esgoto também é um fator preocupante. Nas áreas de favela o despejo de dejetos é feito muitas vezes diretamente nos rios e lagoas próximos, a céu aberto, ou ainda em fossas construídas de forma precária, que podem contaminar o solo e chegar a um lençol freático. Não existe um consenso entre estudiosos sobre a definição de favelas. O IBGE e o Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP), da Prefeitura do Rio, trabalham com definições diferentes. Na maior parte das vezes, essas comunidades são formadas por pessoas que não têm a posse de suas casas, não pagam IPTU e ocupam áreas que não fizeram parte da especulação imobiliária. O Morro da Providência, no Centro do Rio, é o local onde surgiu aquela que é considerada a primeira favela da cidade. A comunidade apareceu por volta de 1897, quando ex-combatentes da Guerra de Canudos se fixaram no lugar. Na época, o espaço ficou conhecido como Morro da Favela, em alusão a uma planta do sertão da Bahia - onde houve a guerra - que tem esse nome. |
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| Outubro/2004 |